Tempo de mudança
Minha entrevista para o Voz Futura e uns bastidores deste projeto
Esta semana dei uma entrevista para o site “Voz Futura” e vou repostar aqui como o texto da semana. Um pouco porque achei que ficou legal (e chique!) e queria mostrar pra vocês, um pouco porque estou no meio de uma grande mudança de casa por aqui e não deu para escrever um ensaio novo (e tudo bem, né?).
Você pode me imaginar agora no meio de um monte de caixas de papelão que peguei no supermercado e enrolada em metros e metros de fita marrom. Ou, então, fazendo a Marie Kondo na escolha do que vai pra casa nova e do que vai pro lixão.
Ah, na semana passada, chegou uma bela galerinha nova por aqui por causa do último texto. Para vocês, eu queria sugerir uma olhadinha nestes textos aqui, que são os meus preferidos:
Por que é (quase) sempre horrível viralizar na internet?
A personalização está nos isolando? E o que os cartazes da Netflix têm a ver com isso
A grande crise de confiança e o que o seu feed tem com isso
O grande apagamento do processo
Agora vamos à entrevista. Ela foi feita pela Giulia Amendola, a quem eu agradeço pelas ótimas perguntas:
Voz Futura: O nome “Tempo de Qualidade” já carrega uma provocação forte. Em que momento você sentiu que o tempo estava sendo vivido, mas não sentido?
Essa coisa do nome é uma questão mesmo. Dei esse nome “Tempo de Qualidade” pro meu projeto na falta de outro melhor que desse o recado rápido. Mas eu acho esse nome ruim, na verdade (risos). Até escrevi sobre isso outro dia. Disse que, na verdade, não existe isso de tempo de qualidade. A gente fala isso quando quer justificar estar passando pouco tempo com a gente mesmo ou com quem a gente ama. Sabe aquela coisa de “eu fico pouco com meu filho ou vejo pouco meus amigos, mas é tempo de qualidade porque a gente realmente está presente?”. Não que não seja importante estar presente. Mas não pode ser só isso. A gente precisa de “tempo de quantidade” também com as pessoas.
Para criar laços mais longos, mais profundos e de intimidade, precisamos das duas coisas: quantidade e qualidade. Claro que nem sempre dá, mas é preciso aquele tempo de silêncio, de vazio, de tédio. Acho que isso está muito em falta. Não dá para querer ser produtivo com tudo. Quando a gente está tentando otimizar tudo, acha que está ganhando tempo, mas, na verdade, estamos só comprimindo tempo. Não estamos experimentando muito o tempo, sabe? E, afinal, a gente otimiza tanto para que? Para usar o resto do tempo para que? Trabalhar mais?
VF: Como surgiu a ideia do projeto e qual dor pessoal ou coletiva ele tenta responder?
Logo que meu filho nasceu, eu comecei a perceber que minha relação com o tempo tinha mudado completamente. O puerpério obriga a gente a desacelerar e essa questão do tempo, que já estava latente desde a pandemia, explodiu na minha cabeça. O tempo nunca foi tão valioso para mim. E eu pensava que não era possível que eu não tivesse tempo para as coisas que me importavam e eu queria fazer, sabe? Que fosse tudo passando tão rápido e eu tão envolvida com trabalho, cuidado e esse universo digital cheio de distrações e distorções. Quando via já tinha passado o dia inteiro, a semana inteira, o ano inteiro e não tinha encontrado quem queria encontrar, começado o que queria começar, etc.
Era um paradoxo porque eu sentia que estava fazendo mil coisas ao mesmo tempo, mas quando me dava conta, não tinha sobrado tempo para o que deveria ser o essencial: me cuidar, estar com as pessoas, curtir as coisas. Foi aí que eu fiquei com vontade de escrever sobre isso. Até porque imaginava que não era um sentimento só meu. Parecia que eu não conseguia desacelerar porque não era só eu que estava acelerada. Era basicamente o mundo inteiro.
A primeira coisa que veio foi a página no Instagram. Fiquei um ano fazendo carrosséis lá, basicamente, enquanto amamentava meu bebê. Era só para colocar umas angústias para fora mesmo e tentar articular algumas ideias. Depois, eu conheci esse universo das newsletters e achei que tinha tudo a ver transformar o projeto em uma. Vai fazer um ano que estou focada lá no Substack e o Instagram ficou em segundo plano. Fazia muito mais sentido falar sobre essas questões em textos longos, trazendo referências, com mais debates e menos algoritmos.
VF: O que mais te surpreende na relação das pessoas com o próprio tempo hoje?
Acho que esse paradoxo de estar todo mundo acelerado, mas sem tempo para nada. As pessoas aceleram áudio no Whatsapp e vídeo no YouTube, mas estão sempre pedindo desculpas por não ver os amigos. Usam inteligência artificial até para escolher a roupa, mas não conseguem parar para ler um livro. Em tese, temos um monte de recursos e ferramentas para “salvar” tempo, mas na prática ninguém parece ter tempo. E estamos sempre cansados e sem paciência.
VF: Na sua visão, por que desacelerar virou algo tão difícil e que parece quase impossível?
Eu acho que parece impossível justamente porque não parte da gente, parte do ambiente externo. A gente trabalha demais porque a cobrança é cada vez maior por produtividade. As empresas aproveitaram o trabalho remoto na pandemia para perturbar as pessoas fora do expediente e institucionalizar hora extra em casa respondendo mensagem.
A inteligência artificial, que veio com a promessa de economizar tempo, na verdade, aumentou a pressão por produtividade e criou demandas novas de aprendizagem, além de um medo constante nos empregados de serem substituídos, que os faz sentir que precisam sempre entregar mais.
Ao mesmo tempo, a gente passa um tempo absurdo nas redes sociais. Além de elas estarem cada vez mais viciantes e serem fonte de prazer instantâneo, muita gente precisa delas hoje para trabalhar e vender seu peixe. E ainda tem uma pressão estética muito forte nas redes, então muita gente gasta muito tempo tentando seguir os padrões, achando que precisa ganhar mais dinheiro para consumir tudo que é exibido ali também.
As pessoas se comparam o tempo inteiro e acham que precisam fazer cada vez mais. Parece que não dá mais para ter uma vida simples, uma barriguinha, uma ruga, um cabelo fora do lugar.
Para completar, o smartphone faz a gente não ter momentos de pausa. Sabe quando você fazia uma viagem de ônibus e ficava olhando pela janela, pensando em nada? Ou quando ficava uma hora com uma amiga no telefone só jogando conversa fora? Eu não vejo mais ninguém fazer isso. As pessoas pegam o celular nos poucos segundos de espera pelo elevador ou pela comida no microondas.
VF: Que conselho você daria para alguém que sente que nunca tem tempo, mas quer começar a viver com mais presença?
Primeiro, acho que é importante reforçar que não é um problema individual, então a gente pode tentar melhorar, mas não vai resolver sozinho. Mas acho que dá para atacar essa questão da tecnologia: colocar alguns limites no uso do smartphone e das redes e ter mais propósito nas coisas que se está fazendo. Planejar um pouco o que vai fazer com o tempo ajuda também.
Não estou falando de se planejar para ser produtivo, mas para não cair naquele automático de “fiquei 2 horas no TikTok e nem lembro do que vi”, sabe? Você pode planejar ficar 2 horas fazendo colagem, se você gosta disso. O que acontece é que às vezes você quer fazer colagem, mas quando vê ficou 2 horas no TikTok. Ser mais intencional nesse sentido.
Também é importante — na medida do possível — colocar alguns limites no que é tempo de trabalho e o que não é. Ir trabalhando no meio de tudo gera um caos e funciona muito menos do que ter um tempo definido. Para quem é autônomo, isso é uma grande questão.
Também acho que é essencial fazer uma reflexão do que é realmente importante e inegociável e do que está sendo só um ladrão de atenção na rotina.
Por fim, eu ando muito fã do analógico. Um livro, um caderno, uma agenda, um relógio de pulso. Parece loucura, mas são coisas que me ajudam a ficar menos no celular. E menos presa da rodinha do hamster dos algoritmos.
O que você acha disso tudo?
Este vídeo, indicação do meu amigo Lucas Maciel Peixoto, de um artista sobre as dificuldades e o tempo de produção para o YouTube
Esta edição d’ A Lábia, da Ana Lima Cecilio
“as mãos me perseguem”, da Bárbara Bom Angelo
“Como fazer backup da sua base de assinantes no Substack”, um texto útil pra quem também escreve no Substack, da minha outra newsletter, E se eu tiver uma newsletter?
“Mau comportamento”, da Isadora Sinay
A vida que você quer vai dar trabalho. E não estou falando do seu CLT.






Me deu saudade de ficar pendurada no telefone batendo papo com amiga! Fazia muito isso na adolescência. Mandar áudio não é a mesma coisa 😕